Menonitas no Chaco Paraguaio: Como três colônias transformaram o “inferno verde”
Os menonitas são um grupo religioso cristão de origem europeia, pacifista e conhecido pela organização em cooperativas, que chegou ao Chaco paraguaio em 1927 e transformou uma das regiões mais inóspitas da América do Sul em polo agropecuário. Hoje suas três colônias centrais — Menno, Fernheim e Neuland — respondem por uma fatia expressiva do leite e da carne produzidos no Paraguai.
Quem são os menonitas
O menonismo nasceu na Europa do século 16, dentro do movimento anabatista. São profundamente pacifistas e recusam o serviço militar por convicção religiosa — característica que explica boa parte de sua história de migrações. Perseguidos na Europa, muitos emigraram para a Rússia e, depois, para o Canadá.
O gatilho da vinda ao Paraguai foi justamente uma questão de autonomia: no início do século 20, o governo canadense tornou obrigatória a educação secular, o que os menonitas interpretaram como ameaça ao seu modo de vida. Em 1927, o governo paraguaio ofereceu a eles algo que ninguém mais oferecia — o chamado Privilegium, que garantia o direito de administrar as próprias escolas, elaborar regulamentos internos, isenção do serviço militar e liberdade para manter suas tradições.
Em troca, eles ocupariam e desenvolveriam uma região que o próprio Paraguai não conseguia ocupar: o Chaco, o maior bosque seco do mundo, apelidado de “inferno verde” pela hostilidade do clima e pela escassez de água.
As três colônias
A imigração aconteceu em ondas sucessivas até 1947, cada uma com origem diferente:
Colônia Menno (1927) — a primeira, formada por menonitas vindos do Canadá. Chegaram cerca de 1.720 pessoas. Seu centro administrativo é Loma Plata, a cerca de 440 km a noroeste de Assunção.
Colônia Fernheim (anos 1930) — formada por menonitas vindos da Rússia, fugindo do regime soviético. Cerca de 2.015 pessoas se instalaram na cidade de Filadelfia, hoje o principal centro urbano do Chaco Central.
Colônia Neuland (1947) — a última grande onda, no pós-Segunda Guerra, com cerca de 2.300 pessoas.
A população menonita do Chaco hoje gira em torno de 15 mil pessoas. Só Loma Plata reúne cerca de 9 a 11 mil habitantes, distribuídos em mais de cem pequenas aldeias, com média de aproximadamente 100 hectares por habitante — um número que dá a dimensão de como a terra é ocupada por lá.
As colônias se autoadministraram por décadas como se fossem municípios independentes, e ficam no departamento de Boquerón, no extremo oeste do país.
O modelo cooperativo
O que mais distingue as colônias menonitas não é a religião — é a estrutura econômica. Cada colônia se organiza em torno de uma cooperativa que concentra praticamente toda a atividade produtiva e de serviços:
- Cooperativa Chortitzer (Colônia Menno / Loma Plata)
- Cooperativa Fernheim (Filadelfia)
- Cooperativa Neuland
Essas cooperativas não são só compradoras e vendedoras da produção. Elas mantêm o hospital, o supermercado principal, o banco, a escola e boa parte dos serviços da cidade, financiados pelos resultados do negócio. A Fernheim, por exemplo, reúne cerca de 2.400 sócios e opera 20 departamentos diferentes, de frigorífico a postos de combustível — normalmente um membro da família é o titular e os demais participam através dele.
A divisão interna é curiosa: em geral há duas instituições paralelas, a associação, responsável pela parte social (hospitais, educação, lar de idosos), e a cooperativa, responsável pela parte produtiva.
O peso econômico no Paraguai
Os números ajudam a entender por que essas colônias aparecem em qualquer conversa sobre agronegócio no Paraguai:
- Leite: as estimativas variam entre 75% e 90% da produção nacional, dependendo da fonte e do recorte — o número mais alto costuma incluir também as comunidades menonitas da região oriental do país, não apenas as do Chaco. As marcas Trébol e Coop são as mais conhecidas e estão em qualquer supermercado paraguaio.
- Carne: os frigoríficos das cooperativas Chortitzer, Fernheim e Neuland respondem por cerca de 30% das exportações de carne bovina do Paraguai — país que figura entre os maiores exportadores mundiais do produto.
- PIB: a produção cooperativista menonita é estimada entre 6% e 7% do PIB paraguaio.
- Outros cultivos: gergelim (com áreas que chegam a 20 mil hectares), amendoim, sorgo e, em menor escala, soja e algodão.
Para um grupo de cerca de 15 mil pessoas num país de mais de 6 milhões, é uma participação desproporcional — e explica por que o modelo é estudado como caso de desenvolvimento regional.
A língua que sobreviveu a três continentes
Nas colônias ainda se fala o Plautdietsch, um dialeto baixo-alemão levado da Europa para a Rússia, da Rússia para o Canadá e do Canadá para o Chaco. O alemão padrão é usado na escola e no culto religioso, o espanhol nas relações com o resto do Paraguai, e o guarani aparece no contato cotidiano com trabalhadores paraguaios e indígenas.
É uma situação linguística parecida, na lógica, com o que acontece no resto do país — onde o guarani e o espanhol convivem no dia a dia, como explicamos no post sobre palavras em guarani comuns em Ciudad del Este.
Visitar as colônias
As colônias abriram-se ao turismo nas últimas décadas. O escritório de informações turísticas de Loma Plata, administrado pela cooperativa, organiza visitas guiadas às fábricas, ao museu e a locais históricos e naturais do Chaco, com atendimento em espanhol, alemão e inglês. Em Filadelfia, o Koloniehaus (Museu da Colônia) conta a história da ocupação.
Dois avisos práticos para quem for:
- O comércio fecha na hora do almoço, das 12h às 14h, e também aos sábados à tarde e aos domingos. Não é exceção — é regra cultural.
- As distâncias são grandes. Loma Plata fica a cerca de 440 km de Assunção pela Ruta Transchaco, e a estrutura no caminho é escassa. Não é um bate-volta a partir de Ciudad del Este.
O lado que raramente se conta
Um retrato honesto do Chaco menonita precisa incluir a tensão que o desenvolvimento gerou. A expansão agropecuária na região avançou sobre territórios de povos indígenas, entre eles os Ayoreo — dos quais algumas famílias permanecem em isolamento voluntário no mato até hoje, recusando contato. A partir dos anos 1960, missões religiosas levaram famílias ayoreo a deixar a floresta e se assentar perto das aldeias menonitas, um processo que é objeto de crítica de organizações indigenistas.
A chegada da pavimentação da Ruta Transchaco e os investimentos na Rota Bioceânica, que corta Boquerón, trazem outro dilema para as próprias colônias: como manter identidade cultural e modo de vida diante de uma integração muito maior com o restante do país. Mudanças internas já acontecem — o papel da mulher, antes restrito à vida doméstica, vem se ampliando, com mulheres assumindo funções de liderança em igrejas e cooperativas.
Entender esse conjunto — o sucesso econômico e seus custos — é parte de compreender a economia do Paraguai e o que o país se tornou nas últimas décadas.
Perguntas frequentes
Quando os menonitas chegaram ao Paraguai? O primeiro grupo chegou ao Chaco em 1927, vindo do Canadá. Novas ondas migratórias continuaram até 1947, incluindo menonitas vindos da Rússia e do pós-guerra europeu.
Quantos menonitas vivem no Chaco paraguaio? Cerca de 15 mil pessoas nas colônias do Chaco Central, distribuídas principalmente entre Menno, Fernheim e Neuland.
Que língua os menonitas falam no Paraguai? O Plautdietsch, dialeto baixo-alemão, é a língua do cotidiano. O alemão padrão é usado na escola e na igreja, e o espanhol nas relações externas.
O que é o Privilegium? É o conjunto de garantias oferecido pelo governo paraguaio em 1927 para atrair os menonitas: autonomia para administrar escolas próprias, elaborar regulamentos internos, isenção do serviço militar e liberdade religiosa e cultural.
Quanto os menonitas representam da economia paraguaia? A produção cooperativista menonita é estimada entre 6% e 7% do PIB do Paraguai, com participação expressiva na produção de leite e cerca de 30% das exportações de carne bovina.
Dá para visitar as colônias menonitas? Sim. Loma Plata e Filadelfia recebem visitantes, com museus e visitas guiadas organizadas pelas cooperativas. Vale considerar as distâncias — Loma Plata fica a cerca de 440 km de Assunção — e o horário de fechamento do comércio ao meio-dia.
