Tereré e chimarrão

Tereré e chimarrão: a mesma erva, duas culturas

Tereré e chimarrão nascem da mesma planta — a erva-mate — mas são bebidas culturalmente distintas. O chimarrão é quente e gaúcho; o tereré é gelado e paraguaio, a ponto de ter sido declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2020, o primeiro reconhecimento desse tipo já conquistado pelo Paraguai.

A raiz em comum: a erva-mate guarani

A erva-mate (Ilex paraguariensis) é originária da região que hoje reúne Paraguai, sul do Brasil, Argentina e Uruguai, e seu uso remonta aos povos guarani, que a chamavam de ka’a — “folha” ou “erva sagrada” em guarani. Para os guarani, a planta tinha valor ritual, era usada como energético natural e chegou a funcionar como moeda de troca entre tribos. Os jesuítas, a partir do século 16, foram os primeiros europeus a adotar o hábito e espalhar o cultivo da erva como produto de exportação colonial.

Hoje o chimarrão é símbolo da identidade gaúcha e se estende pelo Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Na Argentina e no Uruguai, o “mate” é consumido em ritmo ainda maior — os argentinos são os maiores consumidores per capita do mundo. No Paraguai, prevalece o tereré.

De onde vem o tereré

Não existe uma única versão aceita para a origem do tereré — e vale conhecer mais de uma, já que as próprias fontes paraguaias e brasileiras discordam:

  • Uma versão liga o tereré à Guerra do Paraguai (1864-1870): soldados não podiam acender fogo para esquentar a água sem revelar sua posição, e passaram a tomar a erva-mate fria.
  • Outra versão, considerada mais consistente por pesquisadores, aponta a Guerra do Chaco (1932-1935), entre Paraguai e Bolívia, pelo mesmo motivo — evitar fogueiras que denunciassem a posição das tropas.
  • Uma terceira versão remete aos mensús, trabalhadores escravizados nos ervais do nordeste do Paraguai e da Argentina até meados do século 20, que teriam consumido a erva fria para não serem flagrados fazendo fogo pelos capatazes.

Qualquer que seja a origem exata, o tereré se popularizou a partir da região do Chaco e se tornou, com o tempo, um símbolo nacional paraguaio tão forte quanto as danças folclóricas do país. Em 2011, o Paraguai declarou o tereré bebida nacional e instituiu o último sábado de fevereiro como o Dia Nacional do Tereré.

O reconhecimento da UNESCO

Em 17 de dezembro de 2020, a UNESCO declarou as “Práticas e Saberes Tradicionais do Tereré na cultura Pohã Ñana” Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade — a candidatura havia sido apresentada pelo governo paraguaio em março de 2019. “Pohã ñana” significa, em guarani, algo como “ervas medicinais” — e é exatamente aí que mora a característica mais particular do tereré frente ao chimarrão.

Tereré x chimarrão: as diferenças

TereréChimarrão
Temperatura da águaGelada, com geloQuente (por volta de 70°C)
RecipienteGuampa (chifre de boi)Cuia de porongo (cabaça)
Corte da ervaMais grossa, descansa cerca de 8 meses antes de ser moídaMais fina e processada
Costume de adicionar ervas/frutasMuito comum (yuyos, limão, laranja)Menos comum, tradicionalmente consumido puro
ContextoBebida de calor, ao ar livre, típica do verãoAssociado ao clima frio do Sul

A bomba (o canudo-filtro) também costuma diferir: no tereré paraguaio, é comum ser de metal alpaca, justamente para não enferrujar em contato com a água gelada; no chimarrão, é mais tradicional em prata.

O que são os yuyos

Os yuyos são ervas e plantas medicinais frescas adicionadas à água gelada do tereré — menta, boldo, cedrón, capim-limão, burrito (poleo) e dezenas de outras combinações, cada uma associada a um efeito diferente (digestivo, calmante, diurético). Nas cidades paraguaias é comum encontrar o yuyero, o vendedor ambulante que circula pelas ruas com maços frescos de ervas para quem vai preparar o tereré do dia — uma figura tão típica quanto o próprio tereré em si.

Essa possibilidade de combinar ervas, frutas cítricas e até sucos é uma das razões que tornam o tereré mais versátil que o chimarrão, tradicionalmente consumido sem adições.

Como se prepara um tereré

  1. Coloca-se a erva-mate na guampa, preenchendo bem o recipiente.
  2. Encaixa-se a bomba de lado, sem mexer na erva.
  3. Adiciona-se água bem gelada, sempre com gelo.
  4. Os yuyos (ou suco/fruta, se for o caso) entram na água antes de servir.
  5. A guampa circula entre as pessoas do grupo, sempre no mesmo sentido — regra social que vale tanto para o tereré quanto para o chimarrão, e que não se deve quebrar.

Onde encontrar tereré em Ciudad del Este

Guampas, bombas e erva-mate paraguaia são fáceis de encontrar nos supermercados e mercados locais da cidade — tratamos das opções no post sobre supermercados no Paraguai. Para quem já pensa em levar o hábito pra casa, vale saber que erva-mate e ervas secas industrializadas entram tranquilamente na cota de compras, sem as restrições que valem para bebida alcoólica.

Se o interesse for mais amplo, pela cultura da fronteira e do guarani, vale conferir também o post 10 palavras em guarani comuns em Ciudad del Este e, para quem pensa em fixar residência na região, o guia de morar em Ciudad del Este — a “hora do tereré”, em geral no fim da tarde, é um dos primeiros costumes locais que quem se muda pra cá acaba adotando.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre tereré e chimarrão? O chimarrão é preparado com água quente e consumido principalmente no Sul do Brasil; o tereré é preparado com água gelada, é típico do Paraguai e costuma levar ervas medicinais (yuyos) ou frutas cítricas.

O tereré é reconhecido oficialmente como patrimônio cultural? Sim. A UNESCO declarou o tereré paraguaio Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 17 de dezembro de 2020 — o primeiro reconhecimento desse tipo conquistado pelo Paraguai.

O que são os yuyos do tereré? São ervas e plantas medicinais frescas — como menta, boldo e cedrón — adicionadas à água gelada do tereré, geralmente compradas de vendedores ambulantes chamados yuyeros.

Dá pra levar erva-mate do Paraguai pro Brasil? Sim, é um produto industrializado comum e entra na cota geral de compras, sem as restrições específicas que existem para bebida alcoólica.

Quando é o Dia Nacional do Tereré? O último sábado de fevereiro, instituído pelo Paraguai em 2011, no mesmo ano em que o tereré foi declarado bebida nacional.

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